Respostas


Alex parou um instante, em meio à batalha. Um instante que não durou mais que dez segundos, mas que em sua mente pareceu uma hora, um dia, uma vida inteira.

Observou seus companheiros correndo, golpeando os inimigos, matando, morrendo. Alguns eram velhos, e já tinham participado de incontáveis confrontos anteriormente. Outros eram jovens, mal sabiam o que era viver, tampouco o motivo pelo qual lutavam.

“Mas, e eu? Sei por que luto?”, Alex pensou. “Por minha terra? Por meu povo? Por minha mulher e meus filhos?”

“Ou simplesmente por meu rei...?”. Ele não conseguia responder, e isso fez surgir dúvida em seu coração – uma dúvida que ele nunca havia sentido em toda a sua vida.

Olhou para sua espada manchada de sangue e para o corpo do inimigo que ele havia acabado de matar. Lembrou-se então da primeira batalha em que lutou, há quase 30 anos, e da primeira vez em que matou. Na época era jovem, e achava que a morte era algo inevitável numa batalha.

“O inimigo não tem piedade. Então não tenha piedade dele”, eram as palavras de seu comandante na época, Alex lembrava bem. “Passei anos usando essa justificativa, mas neste momento parece que ela não basta mais”.

“Por que luto?”, perguntou-se novamente.

Mas a resposta insistia em não aparecer. Alex tornou a olhar o corpo do inimigo a seus pés, e olhou para adiante, saindo de seu devaneio. Avançou sobre o exército inimigo, golpeou e matou vários outros guerreiros. Sentia que a batalha estava terminando, e que sairia vitorioso.

Foi então que a resposta que procurava chegou. Após matar vários oponentes, um guerreiro veio em sua direção. Era muito habilidoso, mais que a maioria dos outros. Atacava rápido e forte, aparentava ser um espadachim muito experiente.

– Excelente. Tem sido raro encontrar um oponente tão talentoso nos últimos tempos. – Alex cumprimentou-o, em um momento de trégua do duelo.

O outro não respondeu. Parecia estranho e ofegante. Algo em seu olhar fez Alex vacilar um instante.

“É ódio que ele emana”, pensou. “Mas por quê?”

– Você se julga um ótimo guerreiro, não é? – o outro falou de repente, com a voz um pouco abafada por causa do elmo que usava. – Pensa que pode matar quantos quiser por ser mais habilidoso com uma espada do que a maioria. Mas sua sede por sangue o cega. Você mata pais, filhos, jovens e velhos. Sequer se importa com a vida desses infelizes.

– Mas hoje isso acabará - continuou - Eu, Augusto, o matarei, e vingarei a morte de meu pai! – disse, apontando para o corpo que Alex havia parado para olhar há alguns minutos.

O ataque que se seguiu às palavras de Augusto foi extremamente violento e rápido. Alex tentou se defender o quanto pôde, mas sua mente não estava completamente atenta à batalha. Facilmente perdeu sua espada e caiu, de joelhos, sobre a terra manchada de sangue e coberta de cadáveres. Augusto se aproximou, encostou a lâmina de sua espada no lado esquerdo do pescoço de seu inimigo e disse:

– Com este golpe, termino seus dias de matança e vingo meu honrado pai. Que Deus tenha piedade de sua alma.

Alex fechou os olhos e esperou o fim. “Eu mereço morrer assim. Minha vida foi impregnada por mortes, e nada disso fez sentido. Espero que do ‘outro lado’ eu ache as respostas que tanto procurei”.

Mas a morte não veio. Alex sentiu a pressão da lâmina em seu pescoço diminuir até desaparecer. A espada de Augusto caiu.

Abriu os olhos e viu aquele que teria sido seu algoz caído, morto, no chão. Uma flecha certeira o atingira pelas costas, na região do coração.

Alex se levantou e foi até o corpo de Augusto. Ajoelhou-se ao seu lado, virou-o e retirou o elmo que cobria seu rosto.

Era apenas um rapaz, com seus 19 ou 20 anos. Em seus olhos lágrimas escorriam, de uma tristeza que por pouco teria sido amenizada se tivesse conseguido concluir sua vingança. Alex pousou sua mão sobre os olhos do cadáver para fechá-los e deitou-o no chão.

Levantou-se então e seguiu andando lenta e silenciosamente. A batalha ao seu redor já estava praticamente encerrada. Apenas alguns soldados inimigos ainda resistiam ao longe.

Não sabia ao certo aonde seus pés o levavam, apenas sabia que devia segui-los. Andou cerca de cem metros até parar, à beira de um alto penhasco. Olhou para baixo, onde um rio corria tranquilamente.

“A vida continua, com ou sem guerras”, pensou. “Com ou sem mim...”.

Fechou os olhos e inclinou-se para frente. Sentiu a gravidade puxá-lo, e não ofereceu resistência. Sentiu a vento percorrer seu corpo, enquanto caía cada vez mais rápido.

“Leve-me, belo e sereno rio. Minha vida de nada valeu neste mundo. Espero ser perdoado, mas sei que não mereço perdão. Se ainda tenho direito a um pedido enquanto ainda existo, quero pedir apenas uma coisa: respostas”.

Seu corpo alcançou o rio, e tudo ficou escuro. O fim havia chegado.

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