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Respostas


Alex parou um instante, em meio à batalha. Um instante que não durou mais que dez segundos, mas que em sua mente pareceu uma hora, um dia, uma vida inteira.

Observou seus companheiros correndo, golpeando os inimigos, matando, morrendo. Alguns eram velhos, e já tinham participado de incontáveis confrontos anteriormente. Outros eram jovens, mal sabiam o que era viver, tampouco o motivo pelo qual lutavam.

“Mas, e eu? Sei por que luto?”, Alex pensou. “Por minha terra? Por meu povo? Por minha mulher e meus filhos?”

“Ou simplesmente por meu rei...?”. Ele não conseguia responder, e isso fez surgir dúvida em seu coração – uma dúvida que ele nunca havia sentido em toda a sua vida.

Olhou para sua espada manchada de sangue e para o corpo do inimigo que ele havia acabado de matar. Lembrou-se então da primeira batalha em que lutou, há quase 30 anos, e da primeira vez em que matou. Na época era jovem, e achava que a morte era algo inevitável numa batalha.

“O inimigo não tem piedade. Então não tenha piedade dele”, eram as palavras de seu comandante na época, Alex lembrava bem. “Passei anos usando essa justificativa, mas neste momento parece que ela não basta mais”.

“Por que luto?”, perguntou-se novamente.

Mas a resposta insistia em não aparecer. Alex tornou a olhar o corpo do inimigo a seus pés, e olhou para adiante, saindo de seu devaneio. Avançou sobre o exército inimigo, golpeou e matou vários outros guerreiros. Sentia que a batalha estava terminando, e que sairia vitorioso.

Foi então que a resposta que procurava chegou. Após matar vários oponentes, um guerreiro veio em sua direção. Era muito habilidoso, mais que a maioria dos outros. Atacava rápido e forte, aparentava ser um espadachim muito experiente.

– Excelente. Tem sido raro encontrar um oponente tão talentoso nos últimos tempos. – Alex cumprimentou-o, em um momento de trégua do duelo.

O outro não respondeu. Parecia estranho e ofegante. Algo em seu olhar fez Alex vacilar um instante.

“É ódio que ele emana”, pensou. “Mas por quê?”

– Você se julga um ótimo guerreiro, não é? – o outro falou de repente, com a voz um pouco abafada por causa do elmo que usava. – Pensa que pode matar quantos quiser por ser mais habilidoso com uma espada do que a maioria. Mas sua sede por sangue o cega. Você mata pais, filhos, jovens e velhos. Sequer se importa com a vida desses infelizes.

– Mas hoje isso acabará - continuou - Eu, Augusto, o matarei, e vingarei a morte de meu pai! – disse, apontando para o corpo que Alex havia parado para olhar há alguns minutos.

O ataque que se seguiu às palavras de Augusto foi extremamente violento e rápido. Alex tentou se defender o quanto pôde, mas sua mente não estava completamente atenta à batalha. Facilmente perdeu sua espada e caiu, de joelhos, sobre a terra manchada de sangue e coberta de cadáveres. Augusto se aproximou, encostou a lâmina de sua espada no lado esquerdo do pescoço de seu inimigo e disse:

– Com este golpe, termino seus dias de matança e vingo meu honrado pai. Que Deus tenha piedade de sua alma.

Alex fechou os olhos e esperou o fim. “Eu mereço morrer assim. Minha vida foi impregnada por mortes, e nada disso fez sentido. Espero que do ‘outro lado’ eu ache as respostas que tanto procurei”.

Mas a morte não veio. Alex sentiu a pressão da lâmina em seu pescoço diminuir até desaparecer. A espada de Augusto caiu.

Abriu os olhos e viu aquele que teria sido seu algoz caído, morto, no chão. Uma flecha certeira o atingira pelas costas, na região do coração.

Alex se levantou e foi até o corpo de Augusto. Ajoelhou-se ao seu lado, virou-o e retirou o elmo que cobria seu rosto.

Era apenas um rapaz, com seus 19 ou 20 anos. Em seus olhos lágrimas escorriam, de uma tristeza que por pouco teria sido amenizada se tivesse conseguido concluir sua vingança. Alex pousou sua mão sobre os olhos do cadáver para fechá-los e deitou-o no chão.

Levantou-se então e seguiu andando lenta e silenciosamente. A batalha ao seu redor já estava praticamente encerrada. Apenas alguns soldados inimigos ainda resistiam ao longe.

Não sabia ao certo aonde seus pés o levavam, apenas sabia que devia segui-los. Andou cerca de cem metros até parar, à beira de um alto penhasco. Olhou para baixo, onde um rio corria tranquilamente.

“A vida continua, com ou sem guerras”, pensou. “Com ou sem mim...”.

Fechou os olhos e inclinou-se para frente. Sentiu a gravidade puxá-lo, e não ofereceu resistência. Sentiu a vento percorrer seu corpo, enquanto caía cada vez mais rápido.

“Leve-me, belo e sereno rio. Minha vida de nada valeu neste mundo. Espero ser perdoado, mas sei que não mereço perdão. Se ainda tenho direito a um pedido enquanto ainda existo, quero pedir apenas uma coisa: respostas”.

Seu corpo alcançou o rio, e tudo ficou escuro. O fim havia chegado.

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Carta descartada

burning paper

Desculpa se te tratei bem demais, se te coloquei acima de tudo, se insisti em esquecer de todo o resto ao simples vislumbre dos teus olhos indiferentes.

Desculpa se te ofertei meu coração, esperando receber um mínimo gesto de gratidão. Se atirei meu orgulho no lixo, apenas para tentar te agradar.

Desculpa se não me machuquei o suficiente, se sucumbi à dor de não ser correspondido, se me permiti um momento de amor-próprio e lutei para não mais pensar em ti.

Desculpa se tentei parecer divertido, esperto, interessante. Fui apenas tolo, como todo sonhador.

Acima de tudo, desculpa se te amei. Não foi minha intenção, simplesmente aconteceu, mas prometo não mais cometer esse erro. Adeus.

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Estrada de Cadáveres

Long road

Uma mente transbordando culpa, dentro de um corpo sentado à beira de uma estrada. Sol a pino, carcaças de pequenos animais atropelados no asfalto, tornando-se parte deste conforme as centenas de carros os esmagam. O calor é intenso, queima a pele e desnorteia os pensamentos, mas a dor dentro do ser solitário que vê os carros passando é maior que qualquer queimadura; e por isso ele não move um músculo sequer.

Obriga-se a presenciar aquilo, a sentir aquilo. Não se considera muito diferente daqueles cadáveres esmagados. Asfalto e carne, os mesmo átomos de carbono. Atesta sua insignificância, o vazio em sua alma cresce e o faz duvidar se realmente possui alguma alma. Talvez seja apenas mais um dentre os vários enganos de sua consciência. Seus lábios ressecados começam a rachar; um sorriso insano e coberto de sangue rasga seu rosto.

O último carro passa, a noite chega. O ser se levanta, sua pele ressecada se dilacera com o movimento. Ele caminha lentamente e para no meio da estrada, uma enorme Lua ilumina sua pele escura repleta de ferimentos. As carcaças praticamente sumiram, apenas alguns resquícios de pelos ainda restam no chão. Ajoelha-se e olha para o céu, sente-se o menor dos seres. O sorriso antes insano, agora de desespero. Espera a ajuda de alguém, mas percebe que está só; sempre esteve.

Desolação, desesperança. O ser abaixa o rosto e fita o chão por um longo tempo. A tristeza inicial começa a se metamorfosear em dúvida, a dúvida em aceitação. A noite vai aos poucos curando as feridas, restaurando o corpo desgastado e a mente destruída. O medo da solidão se converte em uma forma de motivação e consolo. As trevas que recobrem o Desconhecido já não assustam, mas sim atiçam a curiosidade, a vontade de compreensão. O ser não é mais o mesmo; é menos do que imaginava, mas muito mais do que era.

Um par de asas surge em suas costas, uma negra e outra branca, rasgando suas vestes. O ser se ergue, completamente nu, e encara o céu mais uma vez, agora com olhar desafiador. Toma impulso e alça voo tão rápido que a estrada logo se torna apenas um ponto distante muito abaixo de si, enquanto a imensidão do espaço o envolve e o absorve. No raiar do novo dia, há uma pele a menos para ser queimada pelo Sol, embora na beira da estrada de cadáveres incontáveis seres permaneçam sentados, com suas mentes inquietas e temerosas, fitando os carros inabaláveis e insensíveis; até que uma nova noite se aproxime, e mais asas voltem a surgir.

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Flor Branca

daffodil light

Você me estendeu a mão e pediu: “Voa comigo?”. Naquele momento nem notei o absurdo que aquilo deveria ter soado, simplesmente não me importei. Sem pensar duas vezes, segurei sua mão delicada e subi aos céus com você.

Era um sonho, é claro, mas eu não tinha consciência disso. Acreditei cegamente que estava a quilômetros de altura, sentindo o vento frio em meu rosto e as nuvens se desmanchando conforme as atravessávamos. Lá embaixo, via os campos bastante verdes, as florestas enormes que se perdiam no horizonte e um rio e seus afluentes correndo para desaguar no infinito. Uma intensa e estranha nostalgia me invadiu, como se eu sentisse falta de lugares, formas e sons que eu amava, mas que há séculos haviam sumido.

Ao meu lado você voava em silêncio, sem em nenhum momento soltar minha mão. Seus olhos azuis como o fundo do oceano transbordavam tristeza; seus longuíssimos cabelos castanhos como folhas de outono balançavam lentamente como se tivessem perdido a vontade de viver; e sua pele, branca e fria como a neve do topo de uma montanha, transmitia a sensação de que alguma doença muito séria estava se desenvolvendo e consumindo suas forças. Tentei falar algo para lhe confortar, mas tudo o que me vinha à mente eu sabia que era ilusão.  Lá embaixo, o cenário se alterava rapidamente.

Rios negros de petróleo sólido se alastravam por todos os lados. Luzes artificiais insultavam a Lua, que já não mais conseguia reinar no céu noturno como outrora, em que era adorada e temida como uma deusa. Fumaça contaminava o ar. Lixo destruía a terra e a água. O fogo ardia como nunca, numa cólera incontrolável completamente diferente de quando fora criado. Os quatro elementos se perdiam em meio ao caos e uma vida desfigurada se proliferava, mas o que mais se via eram doenças e morte.

Repentinamente, senti uma tontura muito forte. Queria descer, deitar no chão e chorar por tudo de bom no mundo que estava desvanecendo. Não aguentava mais ver aquela beleza sendo consumida furiosamente pela ganância humana, que destruía tudo apenas para satisfazer seu desejo de se sentir no poder. Você me olhou complacente, como se entendesse em detalhes a dor que eu sentia, e fez-nos parar em pleno ar. Olhou-me intensamente enquanto descíamos, o peso da minha consciência de alguma forma se apaziguando.

Ao tocar o chão escuro de terra queimada e sem vida com meus pés descalços, você me soltou e começou a caminhar para longe. Seu vestido simples esvoaçava ao sabor da brisa que nos atingia ali, e naquela hora percebi que você era a mulher mais linda que jamais vi. Depois de alguns passos você parou, ajoelhou-se e pegou um punhado daquela terra morta. Em seu rosto uma lágrima escorreu e caiu em sua mão, fazendo a terra que você segurava mudar imediatamente. Uma pequena flor brotou, tão branca quanto a sua pele, e você a devolveu ao solo, que também começou a se transformar. Novamente o verde surgiu e se espalhou, não por um espaço muito grande, mas o suficiente para me fazer sorrir novamente e sentir alguma esperança. Olhei ao redor espantado, vendo diversas árvores crescendo quase instantaneamente, uma nascente de rio surgindo ao longe e a água límpida começando a correr rapidamente. Eu estava estupefato com o que você havia feito, mas quando me virei novamente em sua direção, havia apenas a flor branca e nada mais.

Eu sabia, porém, que você continuava ali comigo e em todos os lugares. Deitei-me no chão, sentindo a grama em minhas costas, o cheiro das árvores e o som do rio. Fechei os olhos e percebi que havia encontrado a única resposta para a única pergunta realmente importante para a existência humana e de toda forma de vida. Aquele lugar, naquele sonho, era a própria resposta, e uma serenidade infinita tomou conta de mim.

Nunca mais precisei acordar.

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Jornada Pelo Deserto de Cinzas

Oh Tomorrow I’m Alone ...

Em uma estrada de asfalto repleto de rachaduras, que se estende até se perder no horizonte, o homem de capa preta caminha lentamente. Usa um chapéu também preto, mais para esconder o próprio rosto do que para se proteger do Sol, que há dias não aparece entre as nuvens escuras. De ambos os lados da estrada, apenas poeira e árvores queimadas enfeitam o cenário desolador. Não há pássaros no céu, nem qualquer sinal de vida em qualquer direção, apenas o homem de capa preta.

Faz muito frio e venta bastante, mas o homem parece alheio a tais fenômenos. Seu andar, apesar de um pouco manco, é constante e determinado. Seu rosto se mantém abaixado e oculto pela sombra do chapéu, como se não ousasse olhar para mais que um metro a sua frente. Aparentemente incansável, continua a caminhada por um dia inteiro, até que o Sol acinzentado pelas nuvens se posiciona exatamente onde a estrada termina, centenas de quilômetros à frente. O homem então para, tira de um dos grandes bolsos internos de sua capa um pano cuidadosamente dobrado, uma garrafa de água e um pedaço de pão velho. Sem sair da estrada, estende o pano no chão exatamente à sua frente e senta-se. Em nenhum momento ergue a cabeça, apenas olha o pão e a água em cada uma de suas mãos por um instante e começa a comer sem pressa.

Quando o dia termina, a escuridão é completa. Na há Lua ou estrelas, nem qualquer sinal de luz em qualquer direção. O homem de capa preta não faz uma fogueira – não só porque o vento intenso não permite, mas também por apreciar as trevas. Deita-se de costas, olhando para o céu agora invisível, e dorme um sono sem sonhos.

Acorda aos primeiros raios de Sol pálidos. Levanta-se, bebe um pouco de água, dobra novamente o pano com bastante cuidado e guarda-o em sua capa. Continua sua caminhada, sem qualquer sinal de cansaço, por incontáveis horas, até que ocorre algo completamente estranho, que destoa de tudo naquele lugar.

De início, parece ser apenas um som diferente do vento, como um assobio ou um uivo, mas logo se percebe o som de uma risada infantil, vinda de todos os lados. O homem de capa preta para de súbito, não move um único músculo, apenas escuta. A risada fica mais alta e estridente, distorcida, quase sobrenatural. O vento passa a soprar mais forte, agitando a capa e quase levando o chapéu do homem. Lembranças o assolam. Lugares e eventos antigos são revisitados. Memórias, há muito enterradas, voltam à vida. O homem chora. O vento para. O tempo para. Tudo para. Apenas uma lágrima solitária escorre pelo rosto repentinamente exausto. O rosto de alguém que por muito tempo carregou o peso do mundo sobre seus ombros, o peso de uma tristeza imensurável, de uma dor nunca abrandada.

Sob o silêncio absoluto, o homem cede. Relembra o dia em que perdera seu único filho, lentamente retirado de seus braços por uma terrível doença. Lembra-se daqueles pequenos olhos, sempre tão vivos e alegres, aos poucos perdendo o brilho e se fechando; e daquelas mãozinhas curiosas perdendo a força e caindo sobre a cama do hospital, imóveis. A respiração fraca delicadamente sumindo. O calor se esvaindo, deixando apenas um corpo inútil e frio sobre os lençóis. O homem o abraçou o mais forte que pôde, tentando em vão reaquecê-lo, enquanto os médicos e enfermeiros apenas olhavam a cena, derrotados.

O homem de capa preta cai de joelhos ao chão, sem forças para dar nem mais um passo, e é nesse momento que um leve sopro do vento leva seu chapéu para longe. Surpreso, ele levanta o rosto e, pela primeira vez, olha a sua frente. Não há mais estrada, não há mais aonde ir. Olha então para trás e percebe que também não há nada além de um deserto cinzento às suas costas. Naquela imensidão, o homem se sente pequeno.

As nuvens começam a se dissipar no céu, permitindo que os raios de Sol voltem a brilhar intensamente. Sentindo o calor em sua pele, o homem de capa preta percebe que suas lágrimas começam a secar, e sente-se reconfortado de algum modo inexplicável. Levanta-se e olha ao redor, à procura de algo, mas sem saber o quê. E é então que avista um pequeno vulto caminhando em sua direção, à distância. Sem pensar duas vezes, corre em direção ao seu filho.

Enquanto corre, uma leve brisa percorre carinhosamente seu corpo, seu rosto, seus cabelos. E tudo se torna claro para ele. O homem despe-se de sua capa, que é arremessada em direção ao céu e logo desaparece. Chegando ao seu filho, ajoelha-se e observa por alguns instantes o sorriso, os olhos, o corpo franzino e frágil do garoto. Abraça-o com toda a força, sentindo o calor e a vida que pensara ter perdido para sempre.

O homem e seu filho viram pó, como tudo o que os cerca. Já não são mais um, agora fazem parte de tudo.

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Amor Solitário

Rainy Morning

Abro os olhos lentamente. Sinto-me feliz, mas somente por tempo suficiente para perceber que tudo fora um sonho, e o frio da realidade volta a me consumir.

Levanto-me e vou até a janela do meu quarto, que mais parece um espelho da minha alma: vejo uma manhã cinzenta aos poucos tomando forma, o chão molhado depois de uma madrugada de chuva intensa. Sinto o vento gelado em minha pele e quase sufoco com as lembranças que me traz.

Fecho os olhos. Esforço-me para agarrar cada pedaço do sonho onde estive toda a noite, mas ele se desvanece ao simples toque, como cinzas de lembranças lançadas ao fogo. Procuro entre os restos e encontro algumas partes ainda intactas — são poucas, mas suficientes para me confortar.

Estive contigo, minha amada. Estávamos sentados no chão, conversando encostados em um muro. Conversávamos sobre várias coisas que para mim nada significavam, já que teu sorriso era tudo o que me importava, teus olhos castanhos eram tudo o que eu via, tua mão de encontro à minha era tudo o que eu sentia. Em algum momento nos levantamos e começamos a andar, tu ainda falavas e eu somente ouvia tua doce voz, mas eu sentia que o sonho estava chegando ao fim. Tentei te pedir um beijo antes de tudo terminar, mas hesitei por um instante, com medo de arruinar aquele momento, e acabei por acordar sem sequer ter uma chance de me despedir.

Abro novamente os olhos e me afasto da janela, levando dentro de mim um pedaço daquela manhã. Fico pensando em ti, perguntando-me se algum dia saberás o quanto eu te amo. Talvez o único sentimento tão forte quanto esse amor é o medo que sinto de me declarar e não ser correspondido.

Por isso prefiro o silêncio. O silêncio desse amor solitário que está fincado em meu coração. Queria ter forças para arrancá-lo, mas sempre que tento só me machuco ainda mais. Às vezes penso se não é esse amor que está me mantendo vivo...

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Garota dos Olhos de Esmeralda

Green Eyes By Catsastrofic

Vejo teus cabelos se moverem. Estou aqui, sentado a poucos metros de ti. Posso ver cada fio, cada cacho, cada tom de dourado tocando levemente as tuas costas. Posso quase senti-los, macios entre meus dedos. Por que não me notas?

Estás sorrindo. Queria fazer-te rir também. Ficas tão linda rindo… Isso é redundante. Ficas linda de qualquer maneira. És linda. Eu poderia levantar e dizer-te isso. Dizer que te amo há tanto tempo que nem me lembro. Dizer que te ver é o único motivo para eu estar aqui todos os dias. Dizer que te desejo mais que qualquer um poderia te desejar. Por que não me notas?

Levanto-me. Aproximo-me. Sinto teu perfume. Por um instante meu corpo fica mais leve, como se fosse flutuar, mas não posso fechar os olhos agora e perder-me. Não desta vez. Tenho que ser forte, tenho que te encarar e expor esses sentimentos que há tanto me atormentam. Estou a alguns centímetros de ti. Posso ver em detalhes os teus ombros, as tuas costas, a tua cintura. Por que não me notas?

Dou alguns passos e fico em frente a ti. Estás conversando descontraída com uma amiga. Fico alguns segundos tomando coragem para chamar teu nome, para finalmente ser notado. Levanto os olhos devagar. Vejo teu queixo, teus lábios, teu nariz e… Toda a minha coragem se esvai em menos de um instante. Teus olhos me encaram. Verdes. Belos como as mais belas esmeraldas. Atravessam-me e invadem-me. Tudo ao meu redor parece desaparecer. O tempo ou o espaço já não existem. Teus olhos são tudo o que eu vejo e sinto

És uma feiticeira? Um anjo? Um demônio? Não és humana, não podes ser. Mas isso não importa. Eu te amo. Quero gritar essas três palavras o mais alto que eu puder. Eu te amo, eu te amo, eu te amo! Quero segurar-te em meus braços, acariciar teu rosto, beijar-te

Mas não consigo gritar, não há ar em meus pulmões. Tento me mover, mas estou completamente entorpecido. Demoro um pouco para notar: há lágrimas em teus olhos. Por que choras? Por favor, diga-me… Farei o que for preciso para livrar-te dessa tristeza. Dar-te-ei todo o meu amor, toda a minha vida, apenas para te ver sorrir novamente

Tuas pálpebras começam lentamente a se fechar. Meu corpo recupera o movimento, posso novamente respirar. O espaço ao meu redor parece voltar a se preencher de cores e sons. O tempo volta a existir. Dou um passo em tua direção. Sem teus olhos para me enfeitiçar, consigo novamente ver teu rosto e teu corpo. Tento tocar tua face, mas minhas mãos a atravessam. Tento abraçar-te, mas tudo o que sinto é o ar. Estás desvanecendo, deixando-me sozinho neste mundo frio.

Ajoelho-me e começo a chorar. Não posso viver em um mundo sem ti, sem tua beleza para trazer luz à minha vida, sem teu sorriso para me aquecer, sem a esperança de que um dia tu me ames e eu a tenha em meus braços. Fecho os olhos, desolado.

Nas profundezas da minha mente, uma voz começa a ecoar. É apenas um sussurro, que aos poucos vai se tornando audível. Reconheço o doce som da tua voz, dizendo apenas: “Encontre-me”.

Abro os olhos, estou em minha cama. Foi tudo um sonho. Por alguns segundos reflito, e a imagem dos teus olhos retorna ao meu pensamento. Sorrio. Sinto-me feliz como há muito tempo não sentia. Sei que tu existes e sei que tu me amas. Vou encontrar-te, aonde quer que estejas, garota dos olhos de esmeralda.

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Visita ao Porão de Memórias

Pentagon

Hoje vi um fantasma, uma lembrança de uma vida já esquecida. Foi estranho.

Pessoas arquivadas, locais abandonados, situações ocorridas e gravadas em fotos já corroídas. Tudo deixado num canto da memória onde a poeira e o mofo tomam conta.

Vasculho as gavetas enferrujadas e as caixas desgastadas. O que um dia eu cuidei com tanto zelo — e que tantas feridas me causou —, agora apenas ocupa espaço como tralhas que insistimos em manter em nossos porões.

Penso se devo me livrar de tudo aquilo, mas resolvo apenas fechar tudo e deixar do jeito que está. Já não me incomodam por estarem ali e, se sou quem sou hoje, em parte foi por um dia ter conseguido empacotar e guardar tudo aquilo.

Dou meia-volta e caminho em direção à saída. Sem olhar para trás, desligo as luzes e fecho a porta. Lá fora, um novo dia se inicia.

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Vida Pigmentada

Graffiti

Ele fora uma criança normal. Brincara, gargalhara, caíra, chorara, amara, fora amado.

Na adolescência, desbotara um pouco, aos poucos. Começara a perceber realmente o mundo em que vivia. Não era colorido como os desenhos animados, nem tinha cheiro e gosto tão bons quanto os dos bolos que a mãe fazia. Não havia mais gargalhadas sinceras, em tudo havia uma fatia de maldades e segundas intenções. Chegou aos dezoito branco como papel.

Quando adulto, adaptou-se como pôde. Tentou manter seus traços o mais fortes possível, mas percebeu tardiamente que a sua era uma vida de pretéritos imperfeitos. Tentou se colorir, mas a tinta guache saiu com água. Aos trinta, não passava de um rascunho.

Mais alguns anos se passaram. Desistira dos sonhos e da realidade, apenas se deixara levar pelo mar de borrões. Até que um dia chegou à praia, sem fôlego, aos cinquenta. Olhou para si mesmo e percebeu que o mar o havia deixado borrado como tudo o que havia nele, exceto sua cabeça, que sempre mantivera fora d’água mesmo nas piores tempestades.

Com um último esforço, pegou uma borracha que há algum tempo colocara no bolso, sempre adiando o dia em que a usaria. Sem mais pensar, apagou-se. Era agora uma folha em branco — poderia ser tudo o que desejasse.

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