Estupidezes

Prejudice

Algo que tem se tornado frequente nos últimos tempos, especialmente nas redes sociais, é a xenofobia. Em outubro deste ano, quando uma escola no Ceará aplicou questões do Enem 2011 em um simulado ocorrido antes do referido exame, em vez de criticar os responsáveis pelo problema – o Inep, o MEC, o colégio ou outra instituição envolvida – várias pessoas foram ao Twitter e iniciaram uma verdadeira enxurrada de insultos aos cearenses e pouco depois a todos os nordestinos. Essa atitude abominável foi divulgada em diversos sites de notícia e promessas de providências foram feitas, mas eu não soube se alguma foi cumprida.

Individualmente, algumas pessoas também ganharam destaque na mídia por comentários xenofóbicos, como uma estudante de direito do interior de São Paulo que, ano passado, insultou os nordestinos no Twitter após a divulgação de que Dilma Rousseff havia ganhado a eleição para presidente (link para uma reportagem sobre esse episódio); e outra, também estudante, mas gaúcha, que escreveu diversos xingamentos na mesma rede social voltados principalmente aos piauienses, no último dia 7, e que me levou a escrever este texto. Não vou perder tempo com generalizações e nem dizer que as pessoas do sul e sudeste são preconceituosas, pois eu estaria cometendo o mesmo crime que os seres citados acima – não somente um crime de xenofobia, mas um que considero pior, o da estupidez. Não é exatamente um ato criminoso ser estúpido, mas isto está na essência da maior parte dos problemas sociais.

Somos todos de uma mesma espécie, temos quase sempre a mesma quantidade de ossos, dentes e órgãos; todos suamos, choramos e rimos. Atualmente há mais de 7 bilhões de Homo sapiens habitando cada canto deste planeta, todos com uma fisiologia praticamente idêntica, mas insistimos em não enxergar nossos 99% de semelhanças e nos concentrar apenas no 1% de diferenças.

Seja um tom de pele mais claro ou escuro, uma opção religiosa ou sexual, uma posição política, uma forma de falar, um time de futebol para o qual decidimos torcer, passamos a vida inteira nos importando com o que menos deveria importar. Em vez de adotarmos uma filosofia de vida que busque o bem-estar comum, independente das escolhas que cada um faz para si ou das características físicas e psicológicas que cada um possui, atentamos apenas para o que nos difere um do outro e para formas de “corrigir” ou “apagar” essas diferenças. Se eu sou cristão, tenho que converter um mulçumano, pois ele acredita no deus errado. Se eu sou heterossexual, tenho que xingar e fazer piadinhas toda vez que um homossexual aparecer, senão serei menos “macho” segundo meu círculo de amigos. Se eu sou flamenguista, tenho que desprezar quem torce pelo Vasco. Se eu nasci no Sul ou Sudeste do país, tenho que odiar os nordestinos porque… eles falam com um sotaque diferente? Lá onde eles moram é quente o ano inteiro? O nível de pobreza é maior e os problemas sociais são alarmantes? O Brasil inteiro tem problemas, alguns locais mais, outros menos, mas nada justifica qualquer atitude discriminatória baseando-se nisso ou em outro dos motivos que citei.

O preconceito está enraizado na mente humana. É até compreensível, já que é normal se temer o que é diferente, mas não faz qualquer sentido quando se reflete mais seriamente sobre isso. Quando se é sensato, facilmente se chega a essa conclusão, mas não é assim que pensam as pessoas estúpidas – seja por falta ou por uso inadequado de inteligência. Enquanto uma pessoa ignorante possui a falta de conhecimento como matéria-prima para opiniões às vezes ofensivas, mas perdoáveis por não possuírem fundamentos, um estúpido tem pelo menos uma mínima noção sobre o que fala, e é esse o problema. Ele opta por ser preconceituoso, racista ou xenofóbico. Ele sabe o que sua atitude significa, usando seu pensamento deturpado para ferir moral ou fisicamente todos os que não entram na sua criteriosa lista de características “corretas”.

Não posso sugerir como solução para isso uma mudança de pensamento, pois isso ocorre de forma subjetiva – cabe a cada pessoa refletir sobre seus preconceitos a fim de concluir se eles realmente fazem algum sentido. Nem todos, diria até que a maioria, têm essa capacidade pelo simples fato de não saberem pensar por conta própria, e isso se deve a fenômenos sociais mais complexos e profundos, principalmente porque muitos estão ligados a questões culturais e religiosas, em que a emoção é muito mais utilizada que a razão. Se não é possível racionalizar algo, também não é possível uma autoanálise comportamental e psicológica; dessa forma, uma mudança de pensamento só irá ocorrer se ela for necessária para uma aceitação na sociedade ou grupo em que o indivíduo está.

Falo tudo isso de forma completamente dedutiva, não sou nenhum especialista em sociologia ou ciência semelhante e nem tenho certeza de que minhas opiniões sobre os temas aqui abordados ou as expressões utilizadas estão corretas. Entretanto, tenho absoluta certeza de que qualquer tipo de discriminação por motivos como os citados – cor da pele, local de nascimento, sexo, idade, entre uma infinidade de outros – é inaceitável. Se for para ter preconceito contra algo, que seja contra a estupidez.

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